Sei que quero dizer alguma coisa, mas não o que quero dizer, a ideia não me chegou à garganta, ficou presa naquele limbo onde ficam as coisas que nunca chegam a ser, ainda que haja necessidade delas. Eis que me torno a deparar com a poderosa acção que uma ausência pode ter, à medida que cumpro a promessa que nunca me fiz e me vou esquecendo de me lembrar de ti com carinho. Enumero a mim mesmo as coisas de que não gosto em ti, ou em mim em relação a ti, ou no mundo, tento desdenhar-te nas coisas bonitas e desenhar-te nas feias, empreitada por demais frustrada no que toca ao momento presente. O que eu dava para que estivesses agora, não que chegasses, que estivesses já junto a mim, sentisse eu já na minha a tua pele de pêssego, já o perfume do teu cabelo, já os teus lábios de seda, já o teu pescoço e os teus ombros, já a tua voz de embalar, meu amor distante.
Pudesse eu conversar contigo, beber uma cerveja contigo, ouvir uma música contigo, dar um passeio contigo, nadar contigo, ir às compras contigo, pudesse eu dar-te um beijo na testa tendo já dado mil, pudesse eu chatear-me e fazer as pazes contigo, pegar-te na mão e dizer-te que te amo a sorrir, para variar.
Voltem sempre!